Carlos Amaral Dias



2019-12-04
Ainda eu não fazia ideia do que era um divã psicanalítico, já Carlos Amaral Dias era um nome que eu sabia de cor. Ouvia-o religiosamente na TSF, num tempo em que era necessário ter um rádio para ouvir rádio. 

Sempre me encantou o modo como descobria mundos no banal, cores no preto e branco, poesia na mais normal prosa quotidiana. Quando este ano tive oportunidade de integrar o seu grupo de supervisão, senti-me de novo à escuta, no pequeno rádio que andava sempre comigo. 

Ouvi-lo, agora ao vivo,  e ter a possibilidade de pensar com ele, é das coisas que me faz ser grata por ter vivido no seu tempo. Não era, porém, um homem consensual. Acho, aliás, que talvez fosse necessário sairmos de nós para dar espaço ao que convocava, instilava, fazia nascer. Caramba, quantas pessoas conhecemos assim na vida? De quantas conseguimos gostar e antipatizar do mesmo modo? Quantas nos conseguem mover, realmente?

Vê-lo a pensar, na sua forma provocadora, onírica, a espaços até infantil, foi, para o meu coração apaixonado pela psicanálise, um privilégio. Ensinou-me a amar o desconhecido e mostrou-me que sem sonho, sem o lado simbólico da vida, ela empobrece, definha e apouca-nos.

A última vez que nos reunimos, ao despedir-me dele, e notando o seu ar cansado, disse-lhe: "cuide de si." 

Não sei o que falhou. Mas sei que não precisamos de conhecer alguém a fundo para sentirmos a sua falta. 

E como ficou chato ser moderno
Agora serei eterno

Carlos Drummond de Andrade