Corpo como lugar
Corpo como lugar



2020-05-25

O instinto de liberdade é qualquer coisa que nasce connosco. Gostamos de nos achar livres, até esbarrarmos nos limites da realidade que nos obriga a vazar para um molde complexo e organizado, tão complexo e organizado quanto o mundo em que vivemos. Esbarramos nesta necessidade de encaixar, de fazer parte, de cumprir, ao mesmo tempo que tentamos encontrar formas de satisfação e prazer.

A comida é a forma mais primária desse prazer, por ter sido o nosso primeiro contacto com o mundo externo. Está associado, desde sempre, a sensações de conforto e prazer. O bebé chora com fome, tem uma sensação física no corpo, desagradável, que desaparece quando recebe alimento. Logo, alimento igual a conforto.

Estão a ver onde quero chegar com isto?

É no acto de sermos alimentados que encontramos, inconscientemente, segurança. Depois, vamos encontrando o amor. E, de seguida, vemos na comida uma forma de comunicar. Agradamos ou desafiamos os pais, aceitando ou rejeitando comida. 

Antes de ir mais a fundo na questão, importa perceber que as questões do peso são, antes de tudo, questões psíquicas que encontram um corpo físico para se manifestarem. 

São também questões de controlo. Não conseguindo gerir pulsões e impulsos, encontramos um lugar fora de nós que consigamos controlar. E a alimentação é uma fuga perfeita. 

Amanhã explico em detalhe tudo isto, mas, para já, antes de entrarem em elaborações sem fundamento e auto-diagnósticos com base no que "ouviram dizer", questionem-se: como olham para o vosso corpo? O que é que ele vos diz? Ouvem-no? Conhecem-no? Gostam dele? 

Comecemos pelo começo. Amanhã estou de volta. 

 

Imagem: Lucien Freud