Covid 19: liberdade para pensar
Covid 19: liberdade para pensar



2020-04-05

Às vezes, dou por mim a pensar neste barco onde estamos todos metidos, no modo como navegamos à vista e nos remos aos quais nos agarramos na tentativa de manobrar o quotidiano. 

E de cada vez que olho à minha volta, a cada corpo que ouço ser contado, ao cheiro a morte e a doença que inevitavelmente paira no ar, há qualquer coisa em mim que se acende, que luta, que não se deixa ir neste súbito empobrecimento da vida e no medo invisível e (por isso) paranóico que nos acolhe a todos. 

E é nessas alturas que me lembro de uma cena icónica do cinema, a do filme Braveheart, em que Mel Gibson, antes de entrar na batalha, diz aos seus homens:  “They may take our lives, but they’ll never take our freedom!”

É meio assim que me vou sentindo nestes dias, é assim que vou sentindo alguns dos outros à minha volta. Estamos manietados de movimentos, forçados a estar em casa, mas o pensamento é livre, tem força, é autónomo.

Além do que nos é pedido, da parte que nos cumpre fazer nestes tempos virais, é importante encontrar um lugar para o pensamento, que nos traga um mundo interno provavelmente angustiado, mas também curioso, expectante, criativo, que encontre uma forma transformadora de lidar com o mundo lá fora. 

Estarmos afastados dos outros para os proteger é uma ideia dogmática destes tempos virais e a maior prova de que a vida se está a reinventar a cada nascer e pôr do sol. O que vai acontecer depois? Quem mundo é este que vamos habitar? Qual vai ser o nosso lugar nele? 

Independentemente das respostas, há qualquer coisa de sólido, que permanece: a liberdade de podermos ser. 

 

Foto: Delacroix, Liberty Leading the People