O vírus da violência
O vírus da violência



2020-03-06
Em vésperas da comemoração do Dia Internacional da Mulher, e quando o Coronavírus começa a dar de si em Portugal, não posso deixar de pensar que há muito mais mulheres a morrer às mãos do "machismo vírus" que deste surto viral. No entanto, os meios, a comoção e os planos de contingência são bastante menos elaborados e causam infinitamente menos interesse. 
 
Perante este surto viral, a sociedade organiza-se no cuidado a prestar, na informação que divulga, no modo como acolhe este pânico latente. Contamos as vítimas com um torpor sinistro, tornamo-nos hipervigilantes ao mínimo espirro ou dor de cabeça, mas ignoramos a febre agressiva que, tantas vezes, está ali mesmo na soleira da porta. 
 
Repito, todos os dias as mulheres são vítimas de violência, agredidas ou abusadas pelos "companheiros", há mais vítimas de violência doméstica do que de Coronavírus,  mas a preocupação, a urgência, o interesse de todos é infinitamente menor. 
 
Colocamos uma máscara para evitar o vírus e uma outra para fingir que não vimos a agressividade de que as mulheres são vítimas diariamente. Desinfectamos as mãos e a consciência e olhamos para o lado porque o assunto "não é nosso." 
 
Se as mulheres morrem, se os homens matam, se somos todos parte do mesmo mundo, então o assunto é de quem?