Psicanálise sem corpo
Psicanálise sem corpo



2020-04-15

Quando a relação terapêutica está afinada, quando analista e paciente têm intimidade, afecto e reconhecem o lugar um do outro, o processo analítico assemelha-se ao de uma dança, com os gestos, as palavras e os pensamentos numa sintonia que, mesmo quando é assintónica, produz efeito. 

Tudo comunica numa sessão. O pensamento, a voz, o silêncio, o corpo, tudo o que somos está lá, embora nem tudo esteja visível. Como terapeuta, cabe-nos encontrar o subtexto, o invisível e, tantas vezes, o indizível. 

Nestes dias de pandemia, em que, como dizia McLuhan, "o meio é a mensagem", parece que há qualquer coisa que se perde, não no discurso manifesto mas nas pequenas coisas mais escondidas onde às vezes se encontra o fio de uma meada. 

Um respirar, uma entoação mais subtil, um olhar mais desencontrado, uma associação inusitada, um silêncio que não se fez, lapsos e deslizes que, por vezes, dizem mais que frases ordenadas. Coisas que a tecnologia, por muito que nos salve agora, ainda não consegue replicar.

Falta corpo nesta psicanálise, faltam os corpos de ambos, que também falam. Felizes de nós que podemos continuar o trabalho terapêutico, viva a tecnologia! Mas que volte depressa o analógico, a escuta mais aberta e lúdica, a dança de analista e paciente sem cortinas de fumo de permeio. 

 

“The Couple,” Peter Schoolwerth (o casal paciente/analista)