Silêncio e Intimidade
Silêncio e Intimidade



2020-04-20

Silêncio e Intimidade, por João Seabra Diniz

Psicanalista

Para falar sobre intimidade é necessário compreender a pessoa. E a primeira ideia que ocorre é a de que a capacidade de intimidade começa com a boa qualidade do contacto com o nosso mundo interno, com a nossa experiência de intimidade com nós mesmos. Em paz. Em paz com as nossas memórias e com os nossos sentimentos. Com as nossas certezas e com as nossas dúvidas, com a experiência daquilo que possuímos e com o desejo daquilo que ainda não alcançámos. Em paz com o sentimento da limitação do que conhecemos e com o desejo de descobrir aquilo que ainda não sabemos.
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Considero que a capacidade de estar só é o fundamento da capacidade de estar bem, em intimidade, com alguém. E a capacidade de estar só exige uma certa forma de viver o silêncio.
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E volto à ideia de que a capacidade de estar só é um pressuposto  da construção da intimidade com uma outra pessoa.
 
Mas é importante perceber que nunca se está só mesmo quando se está sozinho. Porque se está perante o próprio mundo interno, povoado por um complexo conjunto de sentimentos, memórias e experiências, tudo organizado num conjunto mantido em unidade coerente pelo próprio sentimento de identidade, tudo vivido como uma história pessoal.
 
Assim o compreendeu Sophia de Mello Breyner quando, ao falar de Búzio, pescador solitário, estático na praia, de olhar perdido, comentou: “No alto da duna, o Búzio estava com a tarde”. Não estava só, portanto.
 
Duas pessoas só podem construir um verdadeiro sentimento de proximidade a partir da riqueza da experiência interior de cada uma, e com a clareza do que se sente e do que se é. A sensação vivida desta clareza recíproca permite um conhecimento tranquilo e uma comunicação eficaz, sem confusão de pessoas.  Constrói uma relação de intimidade.
 
É a partir daqui que o desejo de comunicação com outro se torna presente. É um desejo de falar e um desejo de escuta que leva à experiência de proximidade, de semelhança, de sintonia, como que escutando em conjunto uma mesma música interior, que é a ressonância afetiva da experiência vivida. É um viver em paz e com prazer a diferença, a partir da consciência da semelhança.
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O encontro de intimidade com outro, para ser verdadeiramente satisfatório, supõe a disponibilidade para a descoberta e a capacidade de escuta, que, por sua vez, parte da experiência apaziguadora do encontro com um bom objeto de satisfação interno, o que permite a serenidade e a alegria.
 
A intimidade exige saber ouvir e saber-se ouvido. Exige uma percepção positiva do mundo interno do outro, o que se faz no silêncio. O silêncio é a linguagem dos íntimos, quando não é um vazio, mas  um silêncio vivo, porque cada um sabe o que o outro sente ou pensa, e por isso não é preciso preencher com palavras um espaço que seria inquietante entre duas pessoas, na ausência de uma intimidade verdadeira. É no silêncio que ouvimos a vozes do passado. Da qualidade destas vozes depende a qualidade da intimidade que se estabelece, na continuidade das experiências anteriores.
 
Qual é a relação da intimidade com o amor?
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Antes de mais, é importante dizer que a  intimidade inclui uma dimensão de afeto, que enriquece a proximidade e dá uma qualidade pessoal à experiência que se vive. E o amor deseja esta proximidade. Não tenho dúvidas de que uma boa relação amorosa exige a intimidade. Mas uma boa relação amorosa deste tipo, que dura e cresce com o tempo, não creio que seja a situação mais frequente.
 
(...) deve distinguir-se do amor o “estado amoroso”, ou estado de paixão. O estado amoroso organiza-se a partir de uma forte  idealização do outro, que aparece com enorme vivacidade como sendo tudo aquilo que sempre se desejou e que consigo traz tudo o que pode proporcionar a felicidade. É intensa a sensação de que se conseguiu um bem que durará para sempre e que nada nos poderá tirar, o que nem sempre é verdade. Daqui a conhecida afirmação de Vinicius de Morais, carregada de ironia mas traduzindo uma realidade forte, de que o “Amor é eterno enquanto dura”. A exaltante sensação de intimidade que acompanha o estado amoroso também pode terminar abruptamente.
 
Quando termina o estado amoroso, ao cessar a exaltação que lhe está associada, o amor poderá manter-se no caso em que a realidade de  cada um permite ao outro manter uma certa idealização partilhada, que consiste em valorizar afetivamente as reais qualidades da pessoa amada, e na convicção de que, em conjunto, se tem um bem cujo valor se reconhece e não se quer perder.
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