"Mamã"



2019-11-26
Nem sempre as coisas que pensamos nascem de pensamentos. Eu reformulo: nem sempre o que nos faz pensar é fruto de um pensamento nosso. Foi isso que aconteceu ontem ao ver o maravilhoso e duro "Mamã", de Xavier Dolan. 

Precisei de todo o dia de hoje para referver tudo o que me fez sentir esta história de um amor entre mãe e filho, onde cabem o carinho e o cuidado, mas também a agressividade, a raiva e até um leve trago de incestualidade.

Em tempos onde a ambiguidade parece não existir, em que o pensamento é substituído por convicções e o olhar dos outros parece não nos reflectir a nós, é importante que as relações entre pais e filhos sejam mostradas com a crueza que também têm. E esta tem-na de sobra. 

Não quero entrar demasiado na história, até porque o mais bonito não é tanto a narrativa mas o que ela tem dentro. Este filme tem tudo o que nos torna humanos, não os humanos que gostamos de pensar que somos - sem mácula, sem defeito e sem raiva - mas os reais. 

Os consultórios estão pejados de filhos que não se sentem vistos, adultos que depositam em nós as suas crianças a precisar de serem reconhecidas e inscritas como tal. "Mamã" é o exemplo perfeito de que, por vezes, todo o amor do mundo não resiste a essa falha. 

Podem vê-lo aqui, na RTP Play.